18 de set de 2012

Futuro - I

Dezembro de 2277. Após arqueólogos terem descoberto um acervo completo de antigos... Como se chamavam mesmo? Era uma sigla se não me engano... D... DV... Ah! DVD's. Embalagens de plástico, intactas. Como puderam durar tanto. Um compartimento em ferro, aqueles antigos containers, repleto desses dispositivos. Nomes esquisitos nas embalagens e nas mídias. Black Sabbath, Deep Purple, Led Zeppellin, entre outros. Desenhos estranhos de uma época em que quase nada sabemos, pois tudo se perdera pelo desuso. O modo de produção então era o capitalismo industrial-financeiro. Após a revolução técnico-científica de 300 anos atrás, tudo o que se produzia tornava-se descartável. Muitos pensavam que todo esse legado cultural seria guardado por alguma instituição filantrópica para o futuro, mas a história dos 1000 leiteiros se repetira: ninguém guardava a enorme variedade cultural de uma época de pioneiros na tecnologia de ponta.
Bem, não havia nenhum aparelho que reproduzisse o som e o vídeo daquelas pérolas históricas. Não havia um só livro explicando o que era aquilo e sequer onde se reproduzia aqueles dispositivos. Um sentimento de derrotismo tomou conta dos pesquisadores. O mundo todo, agora apenas uma grande cidade global, pusera-se a procurar uma forma de resgatar o passado. De um modo febril, chegaram a criar um concurso, com o prêmio de 12.000 horas de descanso subsidiado, para quem criasse um dispositivo que reproduzisse aquilo.
Passado. O que tanto temos curiosidade sobre o que as pessoas pensavam, como viviam as pessoas no passado distante? O que seria o século XVII na Europa para um habitante da Terra Brasilis? Dizem e mails sortidos que no Palácio de Versalhes não existiam banheiros. Provavelmente os nobres faziam necessidades em algum canto escuso daquele palácio enorme. Bem, ao menos, penico já era conhecido. Mesmo assim, uma coisa inadmissível para nós. Então, se vivemos em condições bem melhores do que os nobres do passado, por que a obsessão por conhecê-lo em seus mínimos detalhes?
Um menino de 8 anos e meio ganhou o concurso. Inventou um dispositivo complicadíssimo chamado DVD Player, coisa que a tecnologia dominante do final do século XXIII nem sonhava em ter, já que tudo era pré-projetado por máquinas pré-projetadas por humanos há mais de dois séculos que, por medo da concorrência, jogaram fora as informações de como foram construídas.
Bem, o que se viu aí foi uma explosão neocultural. os DVD's foram analisados pelos cientistas neurobiônicos mais respeitados da zona norte da GUC (Grande e Única Cidade). Conclusão? O final do século XX e  começo do XXI fôra marcado por um forte sentimento de revolta, indignação e envolvimento emocional nos relacionamentos humanos. Uma época em que a procriação era por relação e tudo girava em torno de quem possuía quem.
O achado arqueológico logo foi transformado em informação neuroquímica e todos os habitantes Gucianos puderam visualizar os shows pirotécnicos do Heavy Metal das décadas de 1980 e 1990. Um acervo de mais de 10.000 DVD's agora estava crivado na memória dos 16 bilhões de habitantes da GUC. Os que mais sentiram o impacto da descoberta foram os Submen (homens geneticamente modificados com guelras e que podiam suportar altíssimas pressões) habitantes do fundo do mar. O som neste ambiente, o oceano, era bem mais intenso. Não demorou semanas, uma sociedade antes treinada para ser fria, calculista, estava agora questionando tudo, sendo irracional, enviando neuroemails para autoridades virtuais, reivindicando coisas que os avós sentiam mas não colocavam pra fora.
O passado só é passado porque não é nosso presente. Mas foi presente de nossos antepassados. Confuso? Sim. É o tempo. É o passar do tempo. E alguns pontuais são conflitos internos eternos no homo sapiens. O que muda é a explicação, mas o questionamento está ali. E épocas têm suas características próprias. Senão Hobesbawn não teria escrito Eras daquilo, Eras disto...
Todos os gucianos estavam ávidos por aquele estilo de música visceral, primitivo, ritualístico, cheio de misticismo. Guitarras viajantes e vocais estonteantes. Baterias ensandecidas e baixos trazendo todos ao mesmo caminho. Som nunca dantes ouvido. Som inebriante, contagiante, diferente de meras combinações sonoras neurolinguísticas. O passado trazido para o presente. Avassalador.
A sociedade não será mais a mesma. Não sabemos o que será do século XXXIII. A juventude já se transformou. Quer ter sentimentos, emoções fortes. O paradigma de uma sociedade equilibrada depender da responsabilidade social e da consciência disto estava prestes a desmoronar ao som de Smoke on the Water. As passeatas pelas hidrovias rápidas intercontinentais da GUC agora eram repletas de "We don't need no education..."
A arte muda a sociedade sim, quer queiram ou não. Pra melhor ou pra pior? Pergunte aos produtores do filme "Mohammed Trial". Filme que vem causando frisson de violência e revolta entre os povos islâmicos. Não demorará para que algum muçulmano crie um documentário mostrando que Jesus não ressuscitou e seus restos mortais jazem num ossário em Talpiot.
Só um aviso: a arte questiona, nunca incita. Quando houver uma lacuna no bem estar social, a arte estará lá, para questionar e encher os tubos de quem se dá bem com a situação. Respeito é bom, e os muçulmanos gostam, assim como nós, herdeiros da tradição judaico-cristã.