E bateu a química. Neurotransmissores enlouquecidos levaram o casal na pré-descoberta da atração à loucura. Coração em disparada, olhares dela contidos, sorrisos dele, descontidos, aproximação e sem verborréias preliminares, um beijo. Olhos fechados e mente turva. Hormônios explodindo, soltando fogos de artifício. O lobo frontal, fechado para balanço. O hipocampo congestionando conexões. Amor? Insanidade? Não sabiam. E nada disso importava. A química estava em alta naquele momento único em suas vidas.
Veio a biologia. Ela agitava os cabelos, feromônios à vista, ele, enlouquecido. Ele endireitando as costas para ficar o mais alto possível, e assim, demonstrar proteção aos futuros filhotes. Ela atlética, estilo “chester” (peito e coxa), uma boa reprodutora. A dança, ritual de acasalamento mostrava que os dois estavam, na balada, aptos para o perpetuar os genes. Não havia necessidade nenhuma de palavras, os corpos diziam tudo. E a música alta impedia a filosofia. A essa altura, o lobo frontal curtia férias.
Em cena, a matemática básica. Ele, dezenove, ensino médio concluído, ela dezoito, concluindo. Boa diferença de idades. Estudariam juntos. Ele, Letras. Um grande escritor no futuro. Ela, gastronomia. Uma brilhante chef. Em cinco anos estariam prontos para somar e multiplicar. Dividir gastos e subtrair problemas. Potencializar ganhos radiciando bens numa eterna báscara para a felicidade.
A física. Sem a gravidade, o amor é nulo. Dois pés no chão, fazendo peso. A cinemática, o movimento, a força, a aceleração e o atrito, em benefício do prazer. A inércia, para aproveitar cada momento vivido. E novos vetores que os empurravam em MRU, um para o outro.
A Educação Física. Ele, jogador de vôlei, ágil, paciente, hábil com as mãos. Ela, surfista, corpo esculpido em aeróbicas, pilates e musculação. Dois aviões no máximo do “corporis sano”. O “mens sana” ainda estava curtindo um descanso.
A Geografia. Residiam perto, fácil o encontro. Norteavam-se pelo cheiro do perfume, um do outro. Globalizaram suas amizades privadas, mas estatizaram seus segredos mais íntimos. O clima, tropical de altitude, sempre sujeito a chuvas e trovoadas no final da tarde, mas sol e calor, na maior parte do tempo. O relevo já decorado pelos dois, em suas mínimas nuances. A cada encontro, o sismógrafo apontava 7,6 graus na escala Richter.
Artes. Fotos tratadas, filmes no youtube, bilhetes quilométricos com o nome dela escrito mil vezes. Um quadro de caricatura decorando o quarto dela feito por um desenhista en passant no bar mais badalado da cidade. Um coração imenso desenhado a giz na rua em frente a casa dela. Quanto mais o tempo passava, mais humana ia ficando a relação. Afinal, as exatas já haviam concluído sua tarefa.
Inglês. Na intimidade, o ouvido dela era bombardeado por frases na língua anglo-saxã. Não havia nenhum entendimento significativo dela, mas o tom de voz era tão doce que a química e a biologia faziam muito rapidamente a sua parte. Por tradição, um bom I Love You tem maior valor que um Eu te Amo.
História em foco. O historiador é um profeta com os olhos voltados para trás. Todos os relacionamentos anteriores foram efêmeros, mas todos os preparavam para este, dito definitivo. Fatos omitidos por questões politicamente corretas. O processo histórico de uma nova vida florida estava em jogo, e o passado sempre acusador, poderia reativar o caos. A história começara agora. O antes era coisa de algum homo habilis, que não era sapiens.
Mataram muitas vezes a única aula de filosofia da semana, iam para a sala das bolas no ginásio, namorar um pouco. Já tinham o seu Platão em suas vidas. O Descartes já estava combinado. Hegel já os havia reunido na dialética e no absoluto. Às favas com Sartre, Nietzsche e todo um negativismo niilista. A única filosofia permitida a todas as criaturas era o amor.
Um novo livro a cada semana. Da leitura de Tempo e o Vento, passou-se aos best sellers: Mulheres são de Vênus e Homens são de Marte. Havia pressa em definir o que era todo aquele sentimento novo, e o subjetivismo da literatura antiga não era bem vindo. A literatura ganhara, para os dois, novos paradigmas.
Enfim, chegara o tempo da identidade. Do confronto de ideias dantes relegadas a segundo plano. Conversavam tanto sobre a faculdade recém conquistada e o mundo novo que se postava diante deles. Um mundo em constante movimento. Ele, estarrecido com teorias literárias, escrevendo sobre tudo e todos. Ela, impressionada com conhecimentos novos sobre alimentos e suas técnicas de preservação do sabor.
Aconteceu de conhecerem seus novos amigos. Começaram com os novos colegas da gastronomia. Uma frase dela e o lobo frontal voltaria das férias. —Agora com a faculdade até que tem menas coisas pra mim fazer durante a semana. Menas? Pra mim fazer? Como os colegas da Letras receberiam isso? O lobo frontal acordara e estabelecera o caos. E agora? Ela sempre ficava em recuperação na disciplina de português. E isso agora, era significativo. Um elemento do processo histórico que havia sido deixado de lado. Uma cortina de ferro da antiga bipolarização do mundo. Agora a filosofia enquanto arte do pensamento clamava sua presença em sala de aula. Em tudo, tudo mesmo, menos no português. No Ensino Médio da vida, nunca esqueça a boa comunicação. Com certeza a oxitocina continuará em alta, por muito tempo.
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